O Natal é época de união familiar (principalmente com aqueles que nós evitamos o ano todo) de comidinhas gostosas (altamente calóricas que nos transformam em obesos com acne) e de recebermos presentes que não gostamos (isto soou um bocado seco, mas tem de ser se não a introdução fica muito grande)
Antigamente as pessoas resumiam isso às meias, sério, havia sempre um familiar ou dois que oferecia meias. Mas agora não, as pessoas tornaram-se originais e há uma parafernália de coisas que ninguém quer, ninguém precisa, mas que se trocam no natal.
Sim, vocês já devem ter chegado lá, ofereceram-me as 50 Sombras de Grey.
E chegaram lá porquê?
Porque eu tinha escrito no título, obviamente.
Eu pensei em trocar o livro na Fnac sem mais contemplações, fácil e rápido. Mas depois, como sofro de algo gravíssimo chamado síndrome da mão alienígena (benza-me Deus que bem sei que não se deve fazer pouco destas coisas), em que basicamente mal controlo o que as minhas mãos fazem e é péssimo, especialmente na internet, em que sou levada a carregar em links que não lembrariam nem ao menino Jesus no Natal. Então ontem, numa noite de insónia, decidi passar-lhe os olhos.
E o que é que eu tenho a dizer sobre o livro…
Primeiro não entendo o porquê de tanta crítica, o livro é libertador, aliás, senti o mesmo a ler as primeiras 10 páginas que senti ao ouvir o álbum da Áurea pela primeira vez, que é a sensação de que ter talento não é necessariamente o mais importante para se vingar e ter sucesso.
Sério, fiquei com a plena noção de que poderei escrever um livro e que a possibilidade de ele vir a ter sucesso é altíssima, tendo em conta aqueles padrões eu poderei ganhar o Nobel da Literatura, ou não, mas ao menos irei vender bastante.
Albert Camus, Franz Kafka, Gabriel García Márquez, são castradores de sonhos, uma pessoa está a ler aquelas coisas e a pensar “Eu nunca vou escrever nada assim”, mas nas sombras de Grey não, de todo.
Aquilo começa logo bem com a Anastacia Steel a dizer que vai entrevistar um homem que não conhece de lado nenhum, nunca o viu mais gordo e nem sabe nada dele, ele refere esse facto 50 vezes, que nunca o viu que não sabe quem ele é. 5 segundos depois ela própria faz de narrador e descreve-o, com pormenores que só saberia se de facto o conhecesse, há ali uma lacuna besta que ninguém entende.
Outra também genial é o facto dela se estar a preparar para uma noite de sexo louco com aquele Deus grego que é o Christian e tecer como comentário mental:
“Ali estava ele, de jeans e camisa branca… que borracho!”
Borracho?
Quem é que traduziu aquilo? Quem que usa a expressão borracho relacionando-a com sexo?
A nossa tris tris tris tris trisavó recordando a sua noite de núpcias?
E aquela coisa para lá de gasta da principal ser uma tontinha que tropeça nos próprios pés e depois vai-se a ver e é uma rameira do pior? Se eu já detesto o género na vida real, então na ficção nem vos digo. Cabras sonsas dissimuladas é do pior tipo de gente.
E a história em si é para lá de irreal, na primeira vez da moça ela vem-se 3 vezes, não uma, não duas… 3! Soa altamente legitimo. E depois aquilo é género discos pedidos “ele disse-me, vem-te, e eu larguei a minha Deusa interior e vim-me”
Deusa interior?
Mas ela nem é a pior na história, o Christian consegue suplantar a personagem sonsinha. Basicamente ele seria o homem ideal, giro, rico e ninfomaníaco, mas depois parece-se todo àqueles tarados psicopatas, que repetem o nosso nome vezes sem conta, e que o nosso sexto sentido nos diz: “baza rápido antes que ele te esventre e depois utilize a tua pele para passear ao fim de semana pela casa”.
Não há nada mais altamente assustador do que alguém repetir o nosso nome a cada 5 segundos numa conversa, seja ela de que cariz for. Depois há ali uma variante interessante que é o facto de ele a tratar por 3 nomes diferentes, Ana, Anastacia e Menina Steel, aquilo para alguém como eu que estava a passar capítulos tornou-se algo confuso, houve uma altura em que me perguntei “Mas ele está na cama com quantas mesmo?”
Para concluir tenho a dizer-vos que alguém deixar o marido porque esteve a ler as Sombras de Grey e ele não se parece com o Christian (sim, que eu li isso por aí) é a mesma coisa que eu deixar o meu namorado porque estive a ler o Twilight e ele não brilha e dava-me jeito que ele brilhasse. Por acaso até dava mesmo que a luz do meu quarto fundiu.
Sério, ao saber que o livro é um sucesso fiquei triste, principalmente com a minha espécie. Porque os homens regra geral sendo seres simples contentam-se com aquilo que buscam, se o livro promete putaria e tiver putaria os homens ficam felizes. Basta ter a palavra "mama" duas ou três vezes o homem regozija. Mas as mulheres não, as mulheres costumam procurar qualidade e ali, bem... ali não há.